23/12/2011

RESSONÂNCIAS AFETIVAS - Um Conto Espírita


Eram dezenove horas e trinta minutos de uma segunda-feira. Nada, até aquele momento, fazia com que ela suspeitasse da mudança programada para sua vida. Entrava tranqüila em uma sala de aula de uma casa espírita que freqüentava há anos, no bairro onde morava. O curso que ia fazer já havia começado e por motivos pessoais não conseguira iniciar junto com a turma. A expectativa em qualquer início de atividade de estudo é sempre normal. Quem seria o expositor? Entrou calma. Ele estava de costas. Cumprimentou-o com um alegre "olá" e ele virou-se. Dois profundos olhos azuis a fitaram e, como se um furacão lhe varresse a mente, se perguntou: "De onde o conheço?" Tinha certeza absoluta de nunca tê-lo visto, pois certamente não esqueceria aqueles olhos. E ele sorriu. A fisionomia se completava e ao invés de serenar seu coração parecia, naquele momento, que o mundo parava.

O tempo se encarrega de apagar lembranças que desejamos, mas também se encarrega de nos colocar novamente na mesma ciranda para que aprendamos a rodar juntos, em uníssono com o Universo. E ali estava ele, colocado diante dela sem que um soubesse qual lembrança estava acontecendo na mente do outro. A imagem de hoje esvaneceu-se e à sua frente surgiu, como em imensa tela de cinema, o púlpito majestoso e nele a inconfundível figura de Monsenhor Renard. Parecia que todo poder e toda glória da Igreja se resumiam naquele homem. Quando falava, suas palavras percorriam a imensa nave, envolvendo cada um que ali estava.
A jovem Stella se sentia pequena, frágil e absolutamente impotente diante daquela fortaleza. Ele a dominava somente com o som da sua voz. Que poder era aquele que lhe tirava suas forças e não a deixava raciocinar, ponderar, e buscar em Deus o fortalecimento necessário para fugir daquele jugo? E que Deus era aquele que não afastava de sua vida aquele homem? Como era difícil para ela cumprir seus deveres cristãos, pois não conseguia paz para isso! Sedução era a palavra que ela não conseguia pronunciar, mas era a que traduzia, sem sombra de dúvida, o que acontecia com ela. O pregador silencia e ela se deixa ficar onde está. Estática.
A nave central se esvazia e ela sequer dá-se conta disso. Quando quis se levantar u'a mão estendida lhe ofereceu apoio. Era Monsenhor Renard. Olhar profundo, envolvente, cravando em seu coração (...) Ele vinha buscá-la a fim de, mais uma vez, tê-la sucumbida em seus braços. Dois amantes ensandecidos, vítimas de seus próprios desejos. Ela, sem poder dizer não, sem conseguir resistir; ele, não querendo abrir mão de seu poder de sedução. Conhecia seu poder sobre ela. Sabia do seu poder sobre todos.
Corações enfermos, em mentes desarvoradas, trazem sofrimento para si próprios e o espalham ao seu redor, envolvendo a todos que lhes cruzam o caminho ou que partilham com eles a jornada evolutiva. Paixões incontidas, levando a desatinos e permitindo sintonias de baixo padrão vibratório atraem, sem pudores, entidades que gravitam na mesma atmosfera fluídica. Viciações, desequilíbrios, abandono, a busca da morte como saída daquele inferno. No horror da vilania sofrida, envolta no ódio da humilhação sentida, e no abandono de quem não tem na vida a não ser o objeto amado, de quem não se vê, de quem não se ama, de quem não se sente como individualidade, precisando gravitar ao redor de outrem para ter um objetivo, Stella pôs fim a uma existência que poderia ter sido proveitosa e benéfica para si e para os outros.
Sentimento de ódio e desejo de vingança nortearam a vida desse Espírito durante dezenas de anos. Mas, a bondade de Deus nos concede inúmeros recursos de reabilitação e de fortalecimento para isso. O tempo, correndo célere, é nosso aliado e a benção do esquecimento nos alcança quando somos solicitados a retornar à experiência terrena. Encontros e reencontros se sucedem e assim vamos aprendendo a valorizar a vida e as oportunidades de trabalho para nosso crescimento.
A imagem antiga se apaga e a figura do expositor volta a ocupar a sua visão. Num átimo de segundo ela compreendeu. Mas e os sentimentos antigos, onde ficaram? O que aconteceu para que hoje, ela não os sentisse mais? Coração acelerado, a tentativa de disfarçar o que estava acontecendo, o receio de ser pega nessa inquietação, mas principalmente o temor de que ele também se lembrasse, fizeram com que lentamente retornasse à serenidade. A Natureza não dá saltos e, assim, só nos é dado conhecer o que podemos compreender.
Apresentações, votos de boas vindas, companheiros de curso chegando, tudo isso propiciou um retorno ao equilíbrio dessa criatura verdadeiramente perplexa diante do que acabara de vivenciar. Novos conhecimentos, estudos mais profundos, vão nos dando as condições de melhor entendermos o que nos acontece e o que acontece ao nosso redor. O que parecia anormal, milagroso ou sobrenatural, nos surge agora como normal, pois que faz parte das leis naturais. E, apesar de toda lembrança experimentada, ele era, naquele momento, o único homem a quem ela confiaria seu coração.
Semanas se sucedem e a camaradagem toma conta de todos naquela sala. Tempo produtivo de aprendizagem e esclarecimentos. Oportunidades benditas de colocar em prática o que se aprende vão surgindo a cada dia na vida de todos. Uma aparente confiança entre ela e o expositor parecia prenunciar que tudo estava muito bem.
Um dia, companheiros de classe descobriram a data do aniversário dele. Natural alegria tomou conta de todos e, tal qual alunos querendo agradar o mestre, preparam para ele festa surpresa. Alegria, risos, abraços amorosos de quem é grato a alguém que se afasta do aconchego do lar, e que vem abnegadamente ajudar os que buscam aprender. Ela também se aproximou para abraçá-lo e, ao fazê-lo, viu o medo que aquela aproximação física causava a ele. O coração dele acelerou e gentilmente a afastou. Ignorava ele o porquê da sua atitude, o que lhe causara temor. Não era dado a aventuras amorosas, mas o quê o levou a afastá-la de si? O gesto o agradou! O contato físico acalentou seu coração naquele momento. O que estava acontecendo com ele?
A noite, amiga silenciosa, nos surpreende muitas vezes com lembranças as quais nem nos apercebemos estarem em nossa mente. Veladas, silenciosas, vão chegando lentamente a esse coração inquieto. Armand. É esse seu nome. Antes, Renard. Um professor pacato e tímido. Uma praça , e no meio dela aquela mulher brilha. Dança, canta e representa com o grupo de artistas mambembe que recolhe da caridade alheia, em cada cidade que se apresenta, o seu sustento. Naquele momento, para ele, o tempo parou. Pela primeira vez aquele pacato homem sentiu que estava vivo e a única coisa que desejava era estar para sempre ao lado de Teresa. Antes Stella.
Os companheiros partiram maldizendo a perda daquela que na verdade era a responsável pela existência do grupo. Não que fossem talentosos, muito pelo contrário; mas, a beleza e a força sensual de Teresa dava a eles sempre o que comer durante alguns dias, após cada apresentação. Como a maioria das mulheres, a artista queria apenas ser mulher. O abandono do grupo foi inevitável. O casamento com Armand, a alegria dos primeiros tempos, a tristeza dos filhos que não vinham, os cuidados com a casa, a monotonia, as dificuldades financeiras. O viço da vida despreocupada, que antes atraia muitos homens, começa a dar os primeiros sinais de desaparecimento. Teresa amava seu marido, mas a preocupação dele era sempre com seus alunos, como se ele precisasse conduzi-los, constantemente, ao caminho reto. Armand sentia uma espécie de remorso, de culpa, que não entendia, em relação a todos seus alunos e, por incrível que pareça, também por Teresa. Daí realizar todos os seus desejos. Mas ela queria mais.
O Espírito dela se inquieta. O desejo de novidades, de quem percorre o mundo na alegria da vida irresponsável, começa a tomar conta de sua mente. Mas, ela ama seu marido e sabe que ele também a ama! Onde a razão dessa insatisfação? Por que esse amor não a alegra mais? Por que esse desejo de ir além, mesmo sabendo que pode feri-lo moralmente, magoá-lo?
Sintonizamos sempre com o que nos afinamos. E outros homens chegaram na vida de Teresa. Presentes que ela dizia ter recebido de amigas. Jóias que escondia para não serem vistas. Armand sabia, pois conhecia sua mulher; mas também a amava e sobretudo se sentia culpado por ela ter mudado assim. E essa sensação de culpa que nunca o abandonava fazia com que a perdoasse sempre. Ele tinha certeza que um dia ela voltaria para ele e que poderiam ser felizes, um ao lado do outro.
O sobressalto, o corpo molhado, a respiração ofegante. Assim ele acorda como que saído de um turbilhão. As idéias parecem não ter lógica e ele demora longos minutos para retornar ao domínio de sua mente. Minutos demorados e benditos que permitiram àquele coração inquieto compreender a razão do seu medo. A lembrança do passado chega a ele, agora, com toda força e com todas as emoções que acompanharam os fatos. Sabia de Renard e Armand, não ignorava mais Stella e Teresa, todos personagens vivos de vidas vividas e sofridas. Mas, bendita seja essa dor que proporciona crescimento, quando podemos aceitá-la como forma do Amor de Deus às Suas criaturas.
O conhecimento que vamos adquirindo a cada experiência vivida nos faz entender que nada dá saltos. Cada etapa da evolução espiritual que experimentamos nos conduz com segurança para a seguinte. Assim, mais preparados e mais atentos, vamos cumprindo todas elas, queiramos ou não. Como vivemos, assim morremos. O tumulto que criamos dentro de nós acaba sempre nos levando a desligamentos corporais de grande dor. Respiramos a mesma atmosfera aqui e lá. Espíritos renitentes insistimos em continuar ignorando as leis amorosas que nos regem a conduta. Tateamos, qual cegos, na busca de sentir o que nosso Espírito materializado procura, através do corpo. E, sem condutor seguro, nos perdemos, quase sempre, em labirintos tortuosos que não nos permitem enxergar a saída .
Segunda-feira, dezenove horas e trinta minutos. Ela entra na sala. É sempre a primeira a chegar. Pela primeira vez, durante tantas semanas, ele não aparece. Um substituto é enviado para continuar os trabalhos. Nós paramos, o Plano Espiritual não.
A busca de ajuda através do Evangelho de Jesus e o conforto da prece realizam milagres dentro de nós. Nos fortalecemos para os embates que nos chegam a cada momento e a Misericórdia Divina se faz presente em nossas vidas através do sono reconfortante. Espíritos libertos buscam encontrar afins. Amigos Invisíveis conduzem esses dois corações ao encontro tão necessário. Lágrimas, sorrisos, e o abraço amoroso sem medo unem as duas almas. Compromissos anteriores se cumprem e o amor desvairado e egoísta, que tanto sofrimento lhes trouxe, surge transformado sob a forma de perdão e esquecimento das faltas. Todo amor sublimado resplandece no trabalho do Bem, e espalha ao redor daquele que ama uma atmosfera de paz e confiança que não se consegue esconder. Sempre foi assim e para sempre será. A capacidade de perdoar de cada um é muito maior do que sua vontade de colocar em movimento essa usina de amor.
Segunda-feira, dezenove horas e trinta minutos. Ela entra na sala. É sempre a primeira a chegar. Ele lá está, de costas. Um alegre "olá" o obriga a voltar-se. Seus olhos se encontram. Nada os perturba. O tempo não parou, o coração não acelerou. Apenas paz e entendimento habitam aqueles corações. Eles voltaram a estar juntos, caminhando a mesma estrada, buscando o mesmo fim. Um amor imenso os une agora, para sempre, porque verdadeiro. Ela entrega a ele um livro com delicada dedicatória: "Querido irmão, tenha certeza de que estamos juntos por uma razão muito forte: auxiliar o próximo, pelo amor de Jesus. Um abraço fraterno e muita paz." Não havia assinatura, não havia endereçamento. Que nomes colocaria? Armand estava certo. Um dia estariam juntos, para sempre.

LEDA MARIA FLABOREA

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Seu comentário e sugestões é sempre bem vindo. Fique na Paz !!!